quarta-feira, 28 de março de 2012

Conexão Demóstenes


“Cachoeira e Demóstenes armaram o mensalão”
Por Marco Damiani (do site Brasil247)

O mensalão, maior escândalo político dos últimos anos, que pode ser julgado ainda este ano pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de receber novas luzes. Elas partem do empresário Ernani de Paula, ex-prefeito de Anápolis, cidade natal do contraventor Carlinhos Cachoeira e base eleitoral do senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

“Estou convicto que Cachoeira e Demóstenes fabricaram a primeira denúncia do mensalão”, disse o ex-prefeito em entrevista ao 247. Para quem não se lembra, trata-se da fita em que um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, aparece recebendo uma propina de R$ 5 mil dentro da estatal. A fita foi gravada pelo araponga Jairo Martins e divulgada numa reportagem assinada pelo jornalista Policarpo Júnior. Hoje, sabe-se que Jairo, além de fonte habitual da revista Veja, era remunerado por Cachoeira – ambos estão presos pela Operação Monte Carlo. “O Policarpo vivia lá na Vitapan”, disse Ernani de Paula ao 247.

O ingrediente novo na história é a trama que unia três personagens: Cachoeira, Demóstenes e o próprio Ernani. No início do governo Lula, em 2003, o senador Demóstenes era cotado para se tornar Secretário Nacional de Segurança Pública. Teria apenas que mudar de partido, ingressando no PMDB. “Eu era o maior interessado, porque minha ex-mulher se tornaria senadora da República”, diz Ernani de Paula. Cachoeira também era um entusiasta da ideia, porque pretendia nacionalizar o jogo no País – atividade que já explorava livremente em Goiás.

Segundo o ex-prefeito, houve um veto à indicação de Demóstenes. “Acho que partiu do Zé Dirceu”, diz o ex-prefeito. A partir daí, segundo ele, o senador goiano e seu amigo Carlos Cachoeira começaram a articular o troco.

O primeiro disparo foi a fita que derrubou Waldomiro Diniz, ex-assessor de Dirceu, da Casa Civil. A fita também foi gravada por Cachoeira. O segundo, muito mais forte, foi a fita dos Correios, na reportagem de Policarpo Júnior, que desencadeou todo o enredo do Mensalão, em 2005.

Agora, sete anos depois, na operação Monte Carlo, o jornalista de Veja aparece gravado em 200 conversas com o bicheiro Cachoeira, nas quais, supostamente, anteciparia matérias publicadas na revista de maior circulação do País.

Até o presente momento, Veja não se pronunciou sobre as relações de seu redator-chefe com o bicheiro. E, agora, as informações prestadas ao 247 pelo ex-prefeito Ernani de Paula contribuem para completar o quadro a respeito da proximidade entre um bicheiro, um senador e a maior revista do País. Demonstram que o pano de fundo para essa relação frequente era o interesse de Cachoeira e Demóstenes em colocar um governo contra a parede. Veja foi usada ou fez parte da trama?

segunda-feira, 19 de março de 2012

Agora, o filme do Raul

  



Observações prévias do CLIPÃO: O texto abaixo, sobre o novo "filme do Raul", tem um ritmo irresistível, com a boa prosa do jornalista Arnaldo Bloch. Pena que ele recorra ao chavão de glorificar a decadência e desprezar o sucesso, num preconceito recorrente na intelectualidade brazuca. Não precisava, pra festejar Raul, bater tanto em Paulo Coelho - que, de pancada, já tem o bastante. Mesmo assim, é leiturão com gosto de videoclip. Pra sorver com uma inocente coca-cola e já tá bom demais.


RAUUUUUUUUUL

Por Arnaldo Bloch (em "O Globo")

O uivo, no título, não é aleatório. Ele
ecoa, como tantos outros gritos,
através do universo de Raul Seixas,
amplamente percorrido pelo olhar
de Walter Carvalho no documentário “Raul —
O início, o fim e o meio”, que estreia semana
que vem. Tive oportunidade de assisti-lo numa
cabine solitária na Cinelândia.
O uivo está nas inflexões tirolesas dos fins
de versos de “Maluco beleza”, onde “normal”
soa nor ma-úúúúú, assim como “igual”, “total”
e “real”, respectivamente. Está no refrão de
“Rock’n’Raul”, de Caetano. No filme, aliás, o
baiano reinterpreta “Ouro de tolo” dissecando
cada sílaba da paródia-prima de canção romântica
que, de tão inteligente, escapou à tesoura
dos milicos, bem como todo o discurso
da dita Sociedade Alternativa.

O Uivo de Raul está no grito de uma criança
batizada em sua homenagem que, quando lhe
perguntam o nome, só sabe respondê-lo alongando
o fonema. Está no choro das hordas
que acompanharam seu féretro, e também no
regozijo dos que, no cortejo, decretam a evidência
psicoafetiva de ele ter-se tornado
imortal. Outro fato, este objetivo: a impossibilidade
física de gritar “Raul” sem uivar.
A lenda Raul, explorada em múltiplas faces
pelo cineasta, subsiste. E não é graças a Paulo
Coelho, um cultor de lendas que, como mostra
o filme de Carvalho e o próprio relato do
escritor em Genebra, foi apenas uma das engrenagens
do processo.
  
Num aspecto, Paulo foi títere de Raul ao
atender à sua necessidade de ser extremamente
direto e amplamente coloquial, em parcerias
como “Al Capone”: o gângster tratado
como um chapa por um cabeludo chapado
que o aconselha a entrar no prumo.
Em entrevista reproduzida no filme, Raul se
diz, claramente, preocupado com a estratégia
de não ser um artista segmentado: “O brasileiro
tem essa mania de querer definir tudo,
se é classe A, B ou C”, queixa-se o roqueiro
que largou o terno e a pasta de produtor musical
para endoidecer nos festivais, nos palcos
e nos discos.
  
Raul queria falar para todas as classes, sem
abrir mão de sua bagagem de leituras e seu
antenamento com vários sistemas de pensamento.
Para filtrar a barafunda, ele usou, como
ponto de partida, uma equação: o rock de
Elvis e o baião de Luiz Gonzaga são duas retas
que se encontram no infinito.
  
Terminado o seu tempo com Raul, Paulo
Coelho usaria esse paradigma do “simples”
para forjar um texto pretensamente puro e
“curado” do desbunde, mas que resultou apenas
em literatura pobre a serviço de um pastiche
recolhido das religiões, de reducionismos
de filosofia e de um ou outro lirismo.
Raul, depois de convertido às drogas pelo
próprio Paulo Coelho — período que o filme
mostra com impressionante riqueza de imagens
em movimento e informação — lança-se
à carreira e encontra a sua síntese de maneira
muito mais bem-sucedida que Paulo. Não no
que toca à grana e à integridade física, mas no
que toca à percepção mais avançada do embuste
civilizacional, que só se alcança através
dos motores do ceticismo e da ironia.
  
O filme é precioso ao mostrar os dois caminhos
gerados por essa interessante e profícua
simbiose, após a separação: um, o de
Paulo, que leva à glória internacional, à fortuna,
à cura do corpo, com mediocridade artística;
outro, que conduz aos ciclos de ascensão
e queda que atingem quase todos os grandes
espíritos, e, enfim, à autodestruição, com
brutal riqueza artística e infinitas matizes.
O filme tem lá seus defeitos, que ocorrem
por um ímpeto de tudo dizer e reiterar que o
faz um pouco menos enxuto do que poderia
ser. Para um dos entrevistados, com quem falei
por e-mail, Walter, ao optar pela dispersão,
perdeu a oportunidade de fazer o primeiro
documentário no Brasil a ultrapassar um milhão
de espectadores.
  
Um crítico de cinema, Rodrigo Fonseca, crê
que tal dispersividade, porém, foi necessária
para que Walter construísse o que ele considera
a maior reportagem cinematográfica já
feita por um documentarista brasileiro.
O público é uma incógnita. Não fosse assim,
“Lula” teria uns 20 milhões de espectadores.
Se depender do fã-clube, das seitas que seguem
Raul e do forte lançamento previsto, é
provável que, no mínimo, ultrapasse a maior
bilheteria da retomada, no gênero: os duzentos
mil de “Vinícius”. Que, em comum com
“Raul”, tem o fato de discorrer sobre um ícone
da música que desafiou normas, bebeu um
bocado e teve uma batelada de mulheres.
Dispersivo ou não, excessivo ou sumário,
acertado ou crivado de equívocos, o filme é,
com certeza, maluco. Beleza?

Trilhas musicais


A beleza da música sendo cuidadosamente construída pelos instrumentistas. Lembra os belos concertos didáticos que o saudoso maestreo Oswaldo D'Aamore promovia na Academia de Letras, em Natal-RN.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O ano em que um livro desmascarou a imprensa



por Ricardo Kotscho
 
“Se a Gazeta Esportiva não deu, ninguém sabe o que aconteceu”. (Slogan de um antigo jornal de São Paulo, nos tempos pré-internet, que ainda inspira muitos jornalistas brasileiros).

Daqui a cem anos, quando os historiadores do futuro contarem a história da velha mídia brasileira, certamente vão reservar um capítulo especial para o que aconteceu em 2011.

Foi o ano em que um livro desmascarou o que ainda restava de importância e influência da chamada grande imprensa na formação da opinião pública brasileira.

O suicídio coletivo foi provocado pelo lançamento de um livro polêmico, A Privataria Tucana, do premiado repórter Amaury Ribeiro Júnior, com denúncias sobre o destino dado a bilhões de reais na época do processo de privatização promovido nos anos FHC.

Como envolve personagens do alto tucanato em nebulosas viagens de dinheiro pelo mundo, o livro foi primeiro ignorado pelos principais veículos do país, com exceção da revista CartaCapital e dos telejornais da Rede Record.

Nos dias seguintes, os poucos que se atreveram a tocar no assunto se limitaram a detonar o livro e o seu autor. Sem entrar no mérito da obra, o fato é que, em poucos dias, A Privataria Tucana alcançou o topo dos livros mais vendidos do país e invadiu as redes sociais, tornando-se tema dominante nas rodas de conversa do Brasil que tem acesso à internet.

No fim de semana, o fenômeno editorial apareceu nas listas de jornais e revistas, mas não mereceu qualquer resenha ou reportagem sobre o seu conteúdo.

Livro apagado

Em 47 anos de trabalho nas principais redações da imprensa brasileira, com exceção da revista Veja, nunca tinha visto nada igual, nem mesmo na época da ditadura militar, quando a gente não era proibido de escrever, apenas os censores não deixavam publicar.

Foi como se todos houvessem combinado que o livro simplesmente não existiria. Esqueceram-se que há alguns anos o mundo foi revolucionado por um negócio chamado internet, em que todos nos tornamos emissores e receptores de informações, tornando-se impossível esconder qualquer notícia.

O que mais me espantou foi o silêncio dos principais colunistas e blogueiros do país – falo dos profissionais considerados sérios –, muitos deles meus amigos e mestres no ofício, que sempre preservaram sua independência, mesmo quando discordavam da posição editorial da empresa onde estão trabalhando. Nenhum deles ousou escrever, nem bem nem mal, sobre A Privataria Tucana, com a honrosa exceção de José Simão.

Alguns ainda tentaram dar alguma desculpa esfarrapada, como falta de tempo para ler e investigar os documentos publicados no livro, mas a grande maioria simplesmente saiu por aí assobiando e mudando de assunto.

O que aconteceu? Faz algum tempo, as entidades representativas da velha mídia criaram o Instituto Millenium, uma instituição voltada à defesa dos seus interesses e negócios, o que é muito justo.
Sob a bandeira da “defesa da liberdade de expressão”, segundo eles sempre ameaçada por malfeitores do PT e de setores do governo federal, os barões da mídia promoveram vários saraus para denunciar os perigos que enfrentavam. O principal deles, claro, era “a volta da censura”.

Pois a censura voltou a imperar escandalosamente na semana passada, só que, desta vez, não promovida por órgãos do Estado, mas pelas próprias empresas jornalísticas abrigadas no Millenium, que decidiram apagar do mapa, não uma reportagem ou uma foto, mas um livro.

Briga com os fatos

O episódio certamente será um divisor de águas no relacionamento entre a grande imprensa e seus clientes. Por mais que cada vez menos gente acreditasse nessa conversa, seus porta-vozes sempre insistiam em garantir que a mídia grande era independente, apartidária, isenta, preocupada apenas em contar o que está acontecendo e denunciar os malfeitos do governo, em defesa do interesse nacional e da felicidade de todos.

Agora, caiu definitivamente a máscara. Neste fim de semana, ouvi de várias pessoas, em diferentes ambientes, que vão cancelar assinaturas de publicações em que não confiam mais.

Como jornalista ainda apaixonado pela profissão, fico triste com tudo isso, mas não posso brigar com os fatos. Foi vergonhoso ver o que aconteceu e não deu para esconder. Graças à internet, todo mundo ficou sabendo.

E agora? O que vão dizer aos seus ouvintes, leitores e telespectadores?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os bastidores da troca no Jornal Nacional


por Rodrigo Vianna

Fiz hoje pela manhã – no twitter e no facebook – algumas observações sobre a troca; observações que agora procurarei consolidar nesse post. Vejo que há leitores absolutamente céticos: “ah, essa troca não quer dizer nada”. Até um colunista de TV do UOL, aparentemente mal infomado, disse o mesmo. Discordo.
Primeiro ponto: a Patrícia Poeta é mulher de Amauri Soares. Nem todo mundo sabe, mas Amauri foi diretor da Globo/São Paulo nos anos 90. Em parceria com Evandro Carlos de Andrade (então diretor geral de jornalismo), comandou a tentativa de renovação do jornalismo global. Acompanhei isso de perto, trabalhei sob comando de Amauri. A Globo precisava se livrar do estigma (merecido) de manipulação – que vinha da ditadura, da tentativa de derrubar Brizola em 82, da cobertura lamentável das Diretas-Já em 84 (comício em São Paulo foi noticiado no “JN” como “festa pelo aniversário da cidade”), da manipulação do debate Collor-Lula em 89.

Amauri fez um trabalho muito bom. Havia liberdade pra trabalhar. Sou testemunha disso. Com a morte de Evandro, um rapaz que viera do jornal “O Globo”, chamado Ali Kamel, ganhou poder na TV. Em pouco tempo, derrubou Amauri da praça São Paulo.
Patrícia Poeta no “JN” significa que Kamel está (um pouco) mais fraco. E que Amauri recupera espaço. Se Amauri voltar a mandar pra valer na Globo, Kamel talvez consiga um bom emprego no escritório da Globo na Sibéria, ou pode escrever sobre racismo, instalado em Veneza ao lado do amigo (dele) Diogo Mainardi.

Conheço detalhes de uma conversa entre Amauri e Kamel, ocorrida em 2002, e que revelo agora em primeira mão. Amauri ligou a Kamel (chefe no Rio), pra reclamar que matérias de denúncias contra o governo, produzidas em São Paulo, não entravam no “JN”. Kamel respondeu: “a Globo está fragilizada economicamente, Amauri; não é hora de comprar briga com ninguém”. Amauri respondeu: “mas eu tenho um cartaz, com uma frase do Evandro aqui na minha sala, que diz – Não temos amigos pra proteger, nem inimigos para perseguir”. Sabem qual foi a resposta de Kamel? “Amaury, o Evandro está morto”.

Era a senha. Algumas semanas depois, Amauri foi derrubado.
Kamel foi o ideólogo da “retomada consevadora” na Globo durante os anos Lula. Amauri foi “exilado” num cargo em Nova Yorque. Patrícia Poeta partiu com ele. Os dois aproveitaram a fase de “baixa” pra fazer “do limão uma limonada”. Sobre isso, o Marco Aurélio escreveu, no “Doladodelá”.

Alguns anos depois, Amauri voltou ao Brasil para coordenar projetos especiais; Patrícia Poeta foi encaixada no “Fantástico”. Só que Amauri e Kamel não se falavam. Tenho informação segura de que, ainda hoje, quando se cruzam nos corredores do Jardim Botânico, os dois se ignoram. Quando são obrigados a sentar na mesma mesa, em almoços da direção, não dirigem a palavra um ao outro. Amauri sabe como Kamel tramou para derrubá-lo.
Pois bem. Já há alguns meses, logo depois da eleição de 2010, recebemos a informação de que Ali Kamel estava perdendo poder. Claro, manteria o cargo e o status de diretor, até porque prestou serviços à família Marinho – que pode ser acusada de muita coisa, mas não de ingratidão.

Otavio Florisbal, diretor geral da Globo, deu uma entrevista ao UOL no primeiro semestre de 2011 dizendo que a Globo não falava direito para a classe C (o Brasil do lulismo). Por isso, trocou apresentadores tidos como “elitistas” (Renato Machado saiu pra dar lugar ao ótimo Chico Pinheiro – aliás, também amigo de Amauri). A Globo do Kamel não serve mais.

Lembremos que, desde o começo do governo Lula, a Globo de Kamel implicava com o “Bolsa-Família”. Kamel é um ideólogo conservador. Por isso, nós o chamávamos de “Ratzinger” na Globo. É contra quotas nas universidades, acha que racismo não existe no Brasil. Botou a Globo na oposição raivosa, promoveu a manipulação de 2006 na reeleição de Lula (por não concordar com isso, eu e mais três ou quatro colegas fomos expurgados da Globo em 2006/2007). E promoveu a inesquecível cobertura da “bolinha de papel” em 2010 – botando o perito Molina no “JN”. Nas reuniões internas do “comitê” global, ao lado de Merval Pereira, tentava convencer os irmãos Marinho dos “perigos” do lulismo.

Lula sabe o que Kamel aprontou. Tanto que no debate do segundo turno, em 2006, nem cumprimentou Kamel quando o viu no estúdio da Globo. Isso me contou uma amiga que estava lá.

Os irmãos Marinho parecem ter percebido que Kamel os enganou. O lulismo, em vez de perigo, mudou o Brasil pra melhor. Mais que isso: a Globo agora precisa de Dilma para enfrentar as teles, que chegam com muito dinheiro e apetite para disputar o mercado de comunicação. Kamel já não serve para os novos tempos. Assim como os “pitbulls” Diogo Mainardi e Mario Sabino não servem para a “Veja”.

Dilma buscou os donos da mídia, passada a eleição, e propôs a “normalização” de relações. O governo seguiu apanhando, na área “ética” – é verdade. O que não atrapalha a imagem de Dilma. Há quem veja na tal “faxina” um jogo combinado entre a presidenta e os donos da mídia. Será? Dilma tiraria as “denúncias” de letra (o custo ficaria para Lula e os aliados). Do outro lado, os “pitbulls” perderiam terreno na mídia. É a tal “normalização”. Considero um erro estratégico de Dilma. Mas quem sou eu pra achar alguma coisa. O fato é que a estratégia hoje é essa!

Patricia Poeta no “JN” parece indicar que a “normalização” passa por Ali Kamel longe do dia-a-dia na Globo (ele ainda tenta manobrar aqui e ali, mas já sem a mesma desenvoltura). Isso pode ser bom para o Brasil.

Não é coincidência que a Globo tenha permitido, há poucos dias, aquela entrevista do Boni admitindo manipulação do debate de 89.
A entrevista (feita pelo excelente jornalista Geneton de Moraes Neto) foi ao ar na “Globo News”. Alguém acha que iria ao ar sem conhecimento da família Marinho? Isso não acontece na Globo!
Durante os anos de poder total de Kamel, a Globo tentou “reescrever” o passado – em vez de reconhecer os erros. Kamel chegou a escrever artigo hilário, tantando negar que a Globo tenha manipulado a cobertura das Diretas. Virou piada. Até o repórter que fez a “reportagem” em 84 contou pros colegas na redação (eu estava lá, e ouvi) – “o Ali é louco de tentar negar isso; todo mundo viu no ar”.

Ali Kamel nega o racismo, nega a manipulação, nega a realidade. Freud explica.

Agora, Boni reconhece que a Globo manipulou em 89. Isso faz parte do movimento de “normalização”. O enfraquecimento de Kamel também faz.

Tudo isso está nos bastidores da troca de apresentadores do “JN”. Mas claro que há mais. Há a estratégia televisiva, pura e simples. Fátima Bernardes deve comandar um programa matutino na Globo. As manhãs são hoje o principal calcanhar de aquiles da emissora carioca. A Record ganha ou empata todos os dias. Com o “Fala Brasil”, e com o “Hoje em Dia”. Ana Maria Braga não dá mais conta da briga – apesar de ainda trazer muita grana e patrocinadores.

Fátima deve ter um novo programa nas manhãs. Ana Maria será mantida. Até porque na Globo as mudanças são sempre lentas – como no Comitê Central do PC da China. A Globo é um transatlântico que se manobra lentamente.

Se a Fátima emplacar, pode virar uma nova Ana Maria. O programa dela deve contar com outras estrelas globais (Pedro Bial, quem sabe?).

A mudança de apresentadores tem esse duplo sentido: enfraquecimento de Kamel (que continuará a ter seu camarote no transatlântico global, mas talvez já não frequente tanto a cabine de comando); e estratégia pra recuperar audiência nas manhãs.

A conferir.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O novo CD de Gal Costa





Marcos Preto, FSP, 29-11

Caetano precisou de uma voz que não fosse a sua para seguir com suas experiências. Ele voltou a essa toada em 2006, quando compôs "Cê", seu trabalho mais experimental desde 1972. E, sozinho, não conseguiria replicar o impacto que o álbum causou. Foi então que planejou "Recanto", com a melhor vocalista que teve na vida, Gal.

Ela estava, como ele antes de "Cê", em fase de quase inércia. Se Caetano, em 2004, vinha de um CD em que cantava standards da música americana, ela saiu há pouco de uma série de trabalhos em que repetia velhos clássicos de Tom Jobim, de Caymmi, dela própria.

Ouvir Gal cantando melodias e letras tão arrojadas -e, mais que isso, levadas sobre arranjos eletrônicos distantes da caretice de seu passado recente- causa estrondo proporcional ao de "Cê", em seu lançamento. É álbum de ruptura, mesmo que Gal abandone essa praia depois de encerrada a temporada de shows. "Recanto" é um disco de Caetano, ambos assumem.

Mas é ingênuo comprar a ideia de que seja um trabalho em que Gal pudesse ser substituída por outra. Tanto que muitas das letras foram construídas especificamente para a história dela. Caetano retoma temas recorrentes no cancioneiro que produziu para Gal no passado. Em "Autotune Autorerótico", retoma a grandeza que só a voz dela lhe proporciona, "os caminhos que levam à grande beleza".

O experimento e a tradição se misturam. Há samba de roda e funk carioca, música para a pista de dança e bossa nova, com piano de Daniel Jobim, neto de Tom Jobim. Talvez os fãs mais "clássicos" de Gal não aprovem tanta ousadia -Caetano perdeu alguns desde "Cê". Mas é necessário que ela se movimente. Que salte, mesmo sendo carregada. Caetano a convidou a, de novo, mudar o mundo. Ela foi, sem medo do tombo.

RECANTO / ARTISTA Gal Costa / LANÇAMENTO Universal Music / QUANTO R$ 30, em média / AVALIAÇÃO ótimo

A difícil vida do PSDB

Janio de Freitas, FSP, 29-11

O diagnótico feito pelo ex-senador Tasso Jereissati para a perda de expressão do PSDB sintetiza, com crueza, as opiniões predominantes na cúpula partidária: "O PT roubou a nossa agenda". Apesar da concordância de fundo, os encontros partidários que buscam possíveis soluções não tornam mais convincente aquela conclusão. E ainda agravam o impasse entre correntes na cúpula partidária. Daí, a rigor, a estranhada ausência de uma exposição de fins jornalísticos, por breve que fosse, do que se passou na reunião feita para análises e propostas inovadoras. O constatável, por transbordamento, foi a oposição ainda mais explícita da corrente de José Serra à presença do deputado pernambucano Sérgio Guerra na presidência do partido. Sérgio Guerra, por sinal, muito qualificado para o posto. A situação do PSDB não é simples. Já a partir da ideia generalizada de que o governo Lula se apropriou, e o de Dilma mantém, "a agenda" dos peessedebistas.

Só os petistas obcecados contestam que Lula, enquanto Antonio Palocci e Henrique Meirelles foram as figuras centrais do governo, continuasse a política econômica de Fernando Henrique. Essa continuidade foi a opção estratégica que neutralizou a engatilhada reação do sistema financeiro privado e, em geral, do poder econômico a Lula e ao ilusório "governo do PT". Mas não foi daí que emergiu a onda lulista. São inseparáveis, na ascensão, três fatores. Com a substituição de Palocci por Guido Mantega e a entrada de Dilma Rousseff no círculo da Presidência, aos componentes conservadores da política econômica foram acrescentadas a pregação de Lula pelo crescimento e medidas objetivas nesse sentido. A neutralidade do poder econômico privado deslizou assim para adesão, difícil de disfarçar, ao governo e a Lula.

O terceiro fator nesta série foi a projeção do Brasil no mundo, com significação especial nos países importantes e nos organismos por eles dominados. Obra da política externa, com seus lances inéditos de soberania e com a contribuição pessoal do íntimo metalúrgico nas cortes e nos tapetes aristocráticos. Quase nada considerado até agora, este fator, suponho, teve influência muito grande também na projeção interna de Lula, em todas as classes sociais. Em outro plano, o assistencialismo de grande escala, sem precedente no Brasil, e a persistente presença pessoal de Lula no país todo, com farta propagação pela mesma mídia que o repudiava, conjugaram-se como engrenagens relojoeiras. Com efeitos não só nas classes beneficiadas, mas até para a projeção internacional, sob o rótulo de distribuição de renda.

Todos esses traços do período de Lula estariam muito bem em um governo social-democrata, como deveria ser o do PSDB ao menos para justificar seu nome. Mas ficou muito longe disso. Exceto a identificação das políticas econômicas na primeira parte da administração Lula, houve divergência em tudo o mais que foi determinante para a caracterização dos dois governos. A ideia de apropriação indébita do que seria a agenda dos peessedebistas é cômoda, mas equivocada. Seu governo de oito anos não fez o que não quis. O sucessor, a par dos seus defeitos e deficiências, quis e fez o que o governo do PSDB não fez porque não quis. O que também pode ser dito assim: não fez porque fazê-lo não era sua agenda.

O problema que o PSDB encontra, e não reconhece, é de identidade. Pensou representar a social-democracia e quem a praticou, nos seus próprios termos, foi outro. Sem olhar-se no espelho, o PSDB não poderá sair para vida nova.