segunda-feira, 19 de março de 2012

Agora, o filme do Raul

  



Observações prévias do CLIPÃO: O texto abaixo, sobre o novo "filme do Raul", tem um ritmo irresistível, com a boa prosa do jornalista Arnaldo Bloch. Pena que ele recorra ao chavão de glorificar a decadência e desprezar o sucesso, num preconceito recorrente na intelectualidade brazuca. Não precisava, pra festejar Raul, bater tanto em Paulo Coelho - que, de pancada, já tem o bastante. Mesmo assim, é leiturão com gosto de videoclip. Pra sorver com uma inocente coca-cola e já tá bom demais.


RAUUUUUUUUUL

Por Arnaldo Bloch (em "O Globo")

O uivo, no título, não é aleatório. Ele
ecoa, como tantos outros gritos,
através do universo de Raul Seixas,
amplamente percorrido pelo olhar
de Walter Carvalho no documentário “Raul —
O início, o fim e o meio”, que estreia semana
que vem. Tive oportunidade de assisti-lo numa
cabine solitária na Cinelândia.
O uivo está nas inflexões tirolesas dos fins
de versos de “Maluco beleza”, onde “normal”
soa nor ma-úúúúú, assim como “igual”, “total”
e “real”, respectivamente. Está no refrão de
“Rock’n’Raul”, de Caetano. No filme, aliás, o
baiano reinterpreta “Ouro de tolo” dissecando
cada sílaba da paródia-prima de canção romântica
que, de tão inteligente, escapou à tesoura
dos milicos, bem como todo o discurso
da dita Sociedade Alternativa.

O Uivo de Raul está no grito de uma criança
batizada em sua homenagem que, quando lhe
perguntam o nome, só sabe respondê-lo alongando
o fonema. Está no choro das hordas
que acompanharam seu féretro, e também no
regozijo dos que, no cortejo, decretam a evidência
psicoafetiva de ele ter-se tornado
imortal. Outro fato, este objetivo: a impossibilidade
física de gritar “Raul” sem uivar.
A lenda Raul, explorada em múltiplas faces
pelo cineasta, subsiste. E não é graças a Paulo
Coelho, um cultor de lendas que, como mostra
o filme de Carvalho e o próprio relato do
escritor em Genebra, foi apenas uma das engrenagens
do processo.
  
Num aspecto, Paulo foi títere de Raul ao
atender à sua necessidade de ser extremamente
direto e amplamente coloquial, em parcerias
como “Al Capone”: o gângster tratado
como um chapa por um cabeludo chapado
que o aconselha a entrar no prumo.
Em entrevista reproduzida no filme, Raul se
diz, claramente, preocupado com a estratégia
de não ser um artista segmentado: “O brasileiro
tem essa mania de querer definir tudo,
se é classe A, B ou C”, queixa-se o roqueiro
que largou o terno e a pasta de produtor musical
para endoidecer nos festivais, nos palcos
e nos discos.
  
Raul queria falar para todas as classes, sem
abrir mão de sua bagagem de leituras e seu
antenamento com vários sistemas de pensamento.
Para filtrar a barafunda, ele usou, como
ponto de partida, uma equação: o rock de
Elvis e o baião de Luiz Gonzaga são duas retas
que se encontram no infinito.
  
Terminado o seu tempo com Raul, Paulo
Coelho usaria esse paradigma do “simples”
para forjar um texto pretensamente puro e
“curado” do desbunde, mas que resultou apenas
em literatura pobre a serviço de um pastiche
recolhido das religiões, de reducionismos
de filosofia e de um ou outro lirismo.
Raul, depois de convertido às drogas pelo
próprio Paulo Coelho — período que o filme
mostra com impressionante riqueza de imagens
em movimento e informação — lança-se
à carreira e encontra a sua síntese de maneira
muito mais bem-sucedida que Paulo. Não no
que toca à grana e à integridade física, mas no
que toca à percepção mais avançada do embuste
civilizacional, que só se alcança através
dos motores do ceticismo e da ironia.
  
O filme é precioso ao mostrar os dois caminhos
gerados por essa interessante e profícua
simbiose, após a separação: um, o de
Paulo, que leva à glória internacional, à fortuna,
à cura do corpo, com mediocridade artística;
outro, que conduz aos ciclos de ascensão
e queda que atingem quase todos os grandes
espíritos, e, enfim, à autodestruição, com
brutal riqueza artística e infinitas matizes.
O filme tem lá seus defeitos, que ocorrem
por um ímpeto de tudo dizer e reiterar que o
faz um pouco menos enxuto do que poderia
ser. Para um dos entrevistados, com quem falei
por e-mail, Walter, ao optar pela dispersão,
perdeu a oportunidade de fazer o primeiro
documentário no Brasil a ultrapassar um milhão
de espectadores.
  
Um crítico de cinema, Rodrigo Fonseca, crê
que tal dispersividade, porém, foi necessária
para que Walter construísse o que ele considera
a maior reportagem cinematográfica já
feita por um documentarista brasileiro.
O público é uma incógnita. Não fosse assim,
“Lula” teria uns 20 milhões de espectadores.
Se depender do fã-clube, das seitas que seguem
Raul e do forte lançamento previsto, é
provável que, no mínimo, ultrapasse a maior
bilheteria da retomada, no gênero: os duzentos
mil de “Vinícius”. Que, em comum com
“Raul”, tem o fato de discorrer sobre um ícone
da música que desafiou normas, bebeu um
bocado e teve uma batelada de mulheres.
Dispersivo ou não, excessivo ou sumário,
acertado ou crivado de equívocos, o filme é,
com certeza, maluco. Beleza?

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